|
Sem dúvida que este assunto é um dos mais mal
compreendidos em nossa sociedade ocidental. E antes que o leitor
prossiga, gostaria de deixar claro que este texto não visa a
defesa do acúmulo de riquezas e nem a defesa da assim chamada
"teologia da prosperidade". Nosso objetivo é discorrer sobre a
fiel interpretação destas palavras do Senhor Jesus e sua vasta
aplicabilidade a imensos segmentos sociais.
Lembro-me de uma ocasião em que um pastor amigo pregava para a
sua congregação e falava à respeito de estarmos bem certos das
coisas que desejamos e que pedimos a Deus. Sua orientação era
que fizéssemos a seguinte pergunta confrontando-a com nossos
desejos e pedidos: "Para que eu desejo isto ou aquilo?" Citou
ele alguns exemplos, como o desejar uma geladeira nova ou um
carro de corrida. Seguindo sua orientação, ao perguntarmos a nós
mesmos para que eu desejo um carro de corrida, a resposta
poderia ser: A fim de me divertir, para mostrar aos outros
minhas habilidades no volante, para competir, etc... Não é assim
tão simples, portanto, justificar um desejo ou um pedido desta
ordem. Não pelo seu valor material ou pelas óbvias dificuldade
em se adquirir um carro de corrida, mas pelos reais motivos por
detrás de um pedido desta ordem.
Já com relação à geladeira nova, para que eu a desejaria? Para
poder tomar água em uma temperatura agradável, conservar por
mais tempo os alimentos, enfim, são bastante plausíveis e
aceitáveis esses motivos a fim de se desejar e de se pedir a
Deus uma geladeira nova. O que contrasta com o absurdo do desejo
de se possuir um carro de corrida, certamente que para a
esmagadora maioria das pessoas.
É evidente que Deus deseja para todos os seus filhos o melhor
desta terra, o que nada tem a ver com amor ao mundo. Porém, como
dito acima, os motivos dos nossos desejos é que terminam por
fazer a grande diferença.
Não foi em uma única ocasião que o Senhor Jesus Cristo teceu
críticas ao comportamento de homens ricos, antes encontramos
notáveis paralelos em Seu Evangelho, como por exemplo nesta
espetacular passagem em Lucas 12:
"Então, lhes recomendou: Tende cuidado e guardai-vos de toda
e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na
abundância dos bens que ele possui. E lhes proferiu ainda uma
parábola, dizendo: O campo de um homem rico produziu com
abundância. E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei, pois
não tenho onde recolher os meus frutos? E disse: Farei isto:
destruirei os meus celeiros, reconstruí-los-ei maiores e aí
recolherei todo o meu produto e todos os meus bens. Então, direi
à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos;
descansa, come, bebe e regala-te. Mas Deus lhe disse: Louco,
esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para
quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico
para com Deus." Lucas 12:15-21
Uma análise deste trecho bíblico nos pode fazer chegar bem
próximos das razões pelas quais poucos ricos entrarão no Reino
de Deus, segundo o Evangelho.
Vejamos que na alegria e nas prioridades do homem rico da
parábola acima muitos planos havia, porém nada que dissesse
respeito a Deus. Isto sem falar no pecado de se confiar em
riquezas deixando de pôr a confiança n'Aquele que tem em sua mão
a autoridade sobre as nossas almas e sobre toda a existência.
"Por que hei de eu temer nos dias da tribulação, quando me
salteia a iniqüidade dos que me perseguem, dos que confiam nos
seus bens e na sua muita riqueza se gloriam?" Salmos 49:5,6
Confiar nas riquezas ao invés de confiar em Deus é uma atitude
de incredulidade, de covardia e de rebelião. A História está
mais do que repleta de exemplos de homens e de mulheres cujo fim
foi trágico e sobremaneira triste, a despeito das riquezas que
possuíam.
Maria Callas foi uma das mais proeminentes cantoras de ópera de
todos os tempos. Era uma artista notável e até os dias de hoje é
tida, por muitos, como o maior soprano de todos os tempos.
Porém, vejamos algumas de suas célebres frases:
 |
"Não me fale à respeito de regras
querido! Onde quer que eu esteja sou eu quem faz o
raio das regras." Maria Callas
"A próxima vez que eu for ver minha mãe será para
vê-la dentro de um caixão e me certificar de que
está realmente morta." Maria Callas |
O modo escandaloso como Maria Callas tratava sua mãe foi, e é
até hoje, motivo de espanto para muitos os que lêem sua
biografia. Callas odiava sua mãe e em um período em que sua
progenitora passava por dificuldades, Callas voltou as costas à
sua mãe negando-lhe qualquer forma de auxílio. E Maria Callas
era rica, uma milionária na realidade.
Não é de nossa conta adentrarmos nos méritos do desentendimento
entre Callas e sua mãe, porém, sabemos quem é que disse:
"Porque Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem
maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte." Mateus
15:4
Diante de desentendimentos ou mesmo de fortes rancores e mágoas
que possamos ter em relação a nossos pais, o que graças a Deus
não é o meu caso, nada e nem motivo algum pode prevalecer diante
deste mandamento de Deus. Mas Callas é quem fazia suas próprias
regras, como ela mesma dizia, não importando se as tais regras
eram contrárias à vontade de Deus ou não.
Maria Callas morreu, aos 53 anos de idade, enfurnada em um
apartamento em Paris, em circunstâncias que até hoje geram
rumores. Há muitos que supõem que "a divina" como era conhecida,
cometeu suicídio após arrastadas crises de depressão. E a
despeito de toda a riqueza que possuía, sua infelicidade era
apresentada a todos por seus próprios lábios.
O trecho bíblico abaixo nos pode dar a entender mais
profundamente sobre o que Deus realmente condena nos ricos.
"Ora, havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de
linho finíssimo e que, todos os dias, se regalava
esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro,
coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava
alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os
cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e
ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o
rico e foi sepultado. No inferno, estando em tormentos, levantou
os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio. Então,
clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a
Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a
língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém,
Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua
vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele
está consolado; tu, em tormentos." Lucas 16:19-25
A arrogância e a soberba! São esses os
principais motivos de os ricos dificilmente entrarem no Reino de
Deus.
Vemos no comportamento do rico mencionado pelo Senhor Jesus uma
total ausência e falta de misericórdia para com os mais pobres e
para com o sofrimento alheio. Este trecho bíblico mostra que
Lázaro desejava se alimentar das migalhas que caíam da mesa do
rico. E a Bíblia registra "desejava", pois Lázaro não chegava a
se alimentar das sobras da mesa daquele homem arrogante, apenas
desejava. Até mesmo os cães que lhe lambiam as feridas tinham um
comportamento mais adequado diante do estado de Lázaro, mesmo
sem possuírem entendimento. Isto também foi registrado a fim de
que possamos ver a monstruosidade do comportamento daquele rico
arrogante. E sua soberba e excessivo amor próprio, em oposição à
misericórdia, nos é revelada por Deus ao tomarmos conhecimento
de que aquele homem, cujo nome deliberadamente nem sequer é
mencionado, "se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que,
todos os dias, se regalava esplendidamente."
Se traçarmos um paralelo entre os seguintes trechos bíblicos
poderemos entender a questão em muito maior profundidade:
Lucas 18, Lucas 12, 1 Timóteo 6 e Tiago 2:
"Entretanto, vós outros menosprezastes o pobre. Não são os
ricos que vos oprimem e não são eles que vos arrastam para
tribunais?" Tiago 2:6
Deus concedeu, e concede, riquezas a quem Ele deseja, o que
inclui homens de Deus do passado e do presente, como Abraão,
Isaque, Jacó, Jó, Noé, Salomão, Davi, José de Arimatéia e tantos
outros. O que Deus abomina, quer seja nos ricos ou nos pobres, é
a arrogância, a altivez de espírito, a soberba e a perversidade,
marca registrada na história de muitos homens e mulheres cujo
quinhão é desta vida. E a despeito de haver muitos pobres
arrogantes e alguns ricos humildes de espírito, é verdade que os
traços da arrogância, da agressividade e da perversidade são
muito mais facilmente encontrados entre os que possuem riquezas.
Basta olharmos à nossa volta.

Home
|